Entrevista com Carina Borrego e Fernanda Torres

do Casa de Viver

Oferecer alternativas para que as mulheres possam integrar esses dois aspectos (profissional e maternidade) é uma questão de humanizar a forma como o mundo do trabalho se relaciona com a maternidade

No Brasil, em 85% das empresas, as mulheres não retornam ao trabalho após a licença maternidade. Essa sentença é resultado da pesquisa global realizada pela Robert Half, com 1.775 diretores de recursos humanos de 13 países, sendo 100 brasileiros. Conciliar a vida profissional com o cuidado dos filhos é uma tarefa árdua para as mães, especialmente, na primeiríssima infância. Após sentir na pele essa dificuldade, Carina Lucindo Borrego inaugurou o Casa de Viver, primeiro coworking familiar do Brasil, em parceria com Fernanda Santiago Torres.

O sucesso da iniciativa influenciou a abertura de outros espaços similares espalhados pelo Brasil, tanto que motivou a criação de um processo de consultoria para poder ajudar de forma mais estruturada novos empreendedores dessa área. Oferecer um selo ou franquia Casa de Viver é o próximo passo da dupla empreendedora. Confira essa e outras novidades na entrevista abaixo:

Como surgiu a ideia de abrir um Coworking familiar?

A Carina Lucindo Borrego, idealizadora do projeto, era tradutora em um escritório de advogados, e estava tendo dificuldade de conciliar o trabalho com o tempo que tinha para ficar com a filha. Como já vinha pesquisando sobre coworking há algum tempo, surgiu a ideia de um coworking em que a gente pudesse trabalhar e estar perto dos filhos ao mesmo tempo.

Depois da maternidade, qual o maior desafio da mulher para se reinserir no mercado de trabalho?

Ter que se dividir entre trabalhar e criar o filho não é tão simples, principalmente nos primeiros anos de vida do bebê. Alguns desafios são a amamentação, a demanda de cuidados específicos como em doenças e consultas médicas. As mulheres dão conta, muitas vezes com sofrimento e angustias. A Casa de Viver oferece às mães a possibilidade de continuarem trabalhando, dando sua contribuição para o mundo, se realizando profissionalmente, garantindo sua renda, sem para isso precisarem abrir mão do seu papel com os filhos.

Ao meu ver, oferecer alternativas para que as mulheres possam integrar esses dois aspectos (profissional e maternidade) é uma questão de humanizar a forma como o mundo do trabalho se relaciona com a maternidade. São coisas que têm sido muito difíceis de conciliar desde que as mulheres foram para o mercado de trabalho. E é absurdo, porque a primeiríssima infância de uma criança, que é o período em que é mais importante para o desenvolvimento dela a manutenção do vínculo com a mãe, é um período tão curto… O mundo do trabalho precisa aprender a acolher essa necessidade, para que tenhamos crianças mais felizes e saudáveis, e mães mais tranquilas, produtivas, e realizadas. Quando a mãe não precisa escolher entre trabalho e filhos, a sociedade inteira ganha: ela pode dar continuidade ao seu trabalho, manter sua renda, se realizar profissionalmente, sem precisar para isso abrir mão de viver a maternidade. E as crianças recebem a atenção de que precisam para se desenvolver de forma saudável no início da vida.

Qual é o perfil dos coworkers da Casa de Viver? Os pais também procuram vocês?

Profissionais liberais ou empreendedores, muitos das áreas de comunicação, marketing, produção de conteúdo, etc., que faziam home office ou trabalhavam em outros escritórios. Os pais também procuram, no momento temos 3 pais frequentando a casa.

No último ano, o mercado de Coworking cresceu 52% (segundo levantamento do Coworking Brasil). É um número bem expressivo, principalmente, se levarmos em consideração o contexto de crise econômica do país. A que você atribui esse crescimento?

Manter um escritório pode ser muito oneroso, aluguel + condomínio + despesas com água, luz, telefone. Devido a isso, na crise o coworking é uma opção bem mais vantajosa financeiramente, além de garantir um ambiente profissional, com toda a infraestrutura de escritório, ainda propicia o networking para geração de novos negócios.

Acreditamos muito que esse modelo precisa se multiplicar e se espalhar por São Paulo e pelo Brasil, para que cada vez mais famílias tenham acesso e possam ser impactadas!

Depois do Coworking, o que pode vir para revolucionar a forma como trabalhamos?

No nosso caso, especificamente falando em família, acreditamos que com o tempo as empresas vão acabar entendendo a importância social do vínculo dos pais com os filhos, especialmente na primeiríssima infância, criando alternativas e formas mais humanas de conduzir o trabalho. Seja com diminuição de jornada, flexibilização de horário, horas de home-office e, por que não, após retorno da licença maternidade alocar a mulher para trabalhar em um coworking familiar, onde ela pode ser produtiva, sem deixar de desempenhar o papel de mãe durante pelo menos os 2 primeiros anos da criança!

A Casa de Viver mudou de endereço e agora está instalada num espaço maior. Vocês tem outros planos de expansão?

Temos sim. Acreditamos muito que esse modelo precisa se multiplicar e se espalhar por São Paulo e pelo Brasil, para que cada vez mais famílias tenham acesso e possam ser impactadas! Por isso criamos um processo de consultoria, para poder ajudar de forma mais estruturada novos empreendedores dessa área, com a possibilidade de, ao fim do processo, oferecermos um selo ou franquia Casa de Viver.